PAULO DIRCEU DIAS
COLUNA PUBLICADA NO SITE "SPORTMANIA"
EM 01.11.2005
DIVERSÃO NA SINUCA
Relaxando a tensão dos jogos disputados com maior paixão, não é incomum os intervalos serem preenchidos com relatos de “causos” do esporte da sinuca, sempre veementemente declarados como “verdadeiros” e envolvendo “testemunhas insuspeitas”!
Conheça alguns:“FOLCLORE (?) DO TEMPO DA ESPERTEZA”
Enfatizam como real que, há muitos anos quase "deu polícia" em famoso salão de São Paulo.
Já muito conhecido como "taco forte", e por isso com dificuldades para conseguir adversário, o ainda jovem "Fantoche" provocou um freqüentador para jogar "valendo", com a oferta de; "jogamos ‘vinte e um’, normal para mim e para você com as bolas valendo pelo dobro do valor". Surpreso e acreditando ter finalmente encontrado o meio de vencer o famoso jogador, muito animado o adversário "topou" o desafio.
Depois de algum tempo, já perdendo diversas partidas, o desafiado finalmente conseguiu encaçapar algumas bolas em seqüência, fazendo 20 pontos, para então verificar que estava numa "enrascada"; se matasse a bola 1 faria 22, "estourando". Só então percebeu que nunca faria 21, fato impossível com todas as bolas valendo números "pares".
Foi uma confusão tremenda. Afirmam que "quase saiu morte"! E dizem que; "até hoje o Fantoche afirma que propôs o jogo com a melhor das intenções". "Mas", continuam as más línguas, "...melhor das intenções? A favor de quem...?".
Redação com base no informativo "Sinuca - SP - 07/82".
“E AGORA, RACHUAM?”
Em 1958, as equipes do Club Homs e do Clube Piratininga decidiam o título do primeiro Interclubes realizado em São Paulo. Depois de horas de acirrada disputa o placar acusava 12 x 12 e o último jogo estava ainda em curso. Jogavam o Rachuan, pelo Homs, e o Geraldo, pelo Piratininga.
As partidas, acirradas, acabaram por levar a decisão à fatídica "negra", em seus momentos finais disputada só a bola branca e a 7, habilmente jogadas em continuadas e desesperadoras defesas. Encaçapar aquela bola negra significava a glória de levar ao seu clube o troféu e título de Campeão Paulista. As torcidas se revezavam entre o nervosismo e animação.
Repentinamente o Geraldo falhou em uma defesa! A desejada 7 ficou próxima da marca da bola 4, com a branca a um palmo, alinhadas para a caçapa. "Era o fim!”, suspiraram. Rachuam, az da sinuca na época, vislumbrou a partida ganha. Era a glória! Seu clube levado à vitória por suas mãos!
Nessa condição, resolveu aproveitar e dar um show! Alternou olhares para o adversário e a platéia, fazendo caretas e provocando incontidos risos. Passou flanela e talco no taco, lixa na sola, caprichou no giz, virou-se para o garçom e mandou servir café para toda a platéia - "por minha conta!” (era gratuito) -, foi ao banheiro, conversou em árabe com os amigos da platéia e, finalmente, resolveu jogar! Mas, o impossível - ou o castigo - aconteceu: a bola 7 deu dois bicos e parou na boca da caçapa. Geraldo matou-a e deu a vitória ao seu Clube Piratininga.
Como explicar? Rachuan era ídolo! Inconformado, ele retornou as bolas onde estavam e, para provar a sua infelicidade, matou a 7 com uma narigada - literalmente - na branca. Risos e gargalhadas suavizaram a derrota do Club Homs.
Publicado na Revista Bola da Vez, comemorativa dos 20 anos de fundação da Federação Paulista de Sinuca e Bilhar.
“O CANHOTO DESTRO”
Contam em Ribeirão Preto, município do Estado de São Paulo, que em época não distante por lá apareceu um indivíduo canhoto, identificado como Samarone. Exímio jogador de sinuca, em poucos dias limpou o dinheirinho dos incautos... e ficou sem adversários, todos assustados com sua habilidade canhota.
Sem adversários e dizendo que não queria perder os "parceiros", Samarone sugeriu mais alguns "joguinhos" para se distraírem, com apostas bastante "altinhas", propondo: "jogo com a mão direita!".
Os animados adversários reapareceram, ávidos por recuperar o dinheiro perdido e levantar o orgulho ferido. Foi nova limpeza geral: "Não é que o canhotinho jogava melhor com a direita que a esquerda!", dizem até hoje.
Descobriram depois; o "Samarone", que nunca foi canhoto mas usa a esquerda tão bem quanto a direita, é o conhecidíssimo Ratinho, de São Paulo.
Publicado na Revista Bola da Vez, comemorativa dos 20 anos de fundação da Federação Paulista de Sinuca e Bilhar.
“BOLA NA BOCA”
Conta um veterano jogador baiano que, na sua juventude presenciou um típico "pega incauto". “Sémil (pseudônimo) era indiscutivelmente o melhor jogador de sinuca de Redasfa (nome fictício), pequena cidade do interior da Bahia", diz ele. Mesmo oferecendo "partido" (vantagens em pontos para iniciar partida) tinha dificuldades em conseguir adversários. Por essa razão costumava inventar jogos e situações diferentes para "atrair jogo".
Um dia, em salão cheio, caprichou na colocação de três bolas sobre a mesa principal, entre a marca da bola cinco e uma das caçapas centrais:
• na "boca da caçapa central" colocou a bola 7, obstruindo totalmente a passagem de outras bolas;
• entre ela e a marca da bola cinco colocou a bola seis;
• completando uma "linha reta com três bolas", entre a bola seis e a marca da cinco colocou a tacadeira, branca.
•
Em seguida, jogando dinheiro sobre a mesa, atraiu a atenção de todos com um desafio inusitado: "eu encaçapo a bola seis sem tirar a bola 7 da boca". O "povão" presente, examinando a colocação da bola sete e confirmando que ela não permitia a passagem da bola seis, duvidou: "é impossível, você não consegue". "Aposto!" desafiou o Sémil. "E só faço apostando", reafirmou.Desafiados, os mais céticos "toparam" rapidamente a porfia. Muitos os acompanharam, fazendo bastante grande o volume de apostas, bancadas com o dono do salão.
Terminadas as apostas o Sémil, muito calmo e todo pomposo, ajeitou sua roupa, limpou o taco, passou talco nas mãos, observou as bolas por alguns segundos, contornou a mesa e parou próximo da caçapa central onde estava a bola sete. Com as mãos para trás curvou-se e, usando a sua boca retirou da mesa a bola sete. Com ela na boca, rapidamente passou para o outro lado da mesa e deu a sua tacada na branca, encaçapando a bola 6 na caçapa prometida. Ainda rápido voltou a bola 7 da sua boca para a posição anterior.... e correu recolher o dinheiro das apostas.
Debaixo dos risos daqueles que, sem dinheiro não tinham apostado, os outros permaneceram num silêncio gélido... mortal... conta o veterano jogador. Olhavam uns para os outros, sem saber se protestavam, se ofendiam o Sémil ou a senhora sua mãe, se o matavam ou chamavam o delegado da pequena cidade!
Mas nada foi feito. Ele cumpriu o que prometeu: encaçapou a bola 6 na caçapa obstruída, sem tirar a bola 7 da "boca"..... dele, e não "da caçapa", detalhe que esqueceram de perguntar, antes de apostar. Os incautos ficaram sem o "rico dinheirinho" e o Sémil nunca mais conseguiu fazer apostas!
Relatado de Valmir Antônio Couto da Silva, quando presidente da Federação Baiana - BA - 02/99.
“TROFÉU DIVIDIDO”
Alertando que "não é chiste", mas sem dúvida equiparado a um, a Federação Baiana conta como relato curioso que, na realização da cerimônia de encerramento e premiação dos vencedores do TORNEIO DA CONFRATERNIZAÇÃO, importante evento promovido e realizado no Clube 2004 da Bahia - Salvador, em agosto de 2000, aconteceu fato inusitado.
O Diretor de Sinuca do 2004 convidou a Madrinha da Sinuca da Bahia, Dona Maria, para fazer a entrega do Troféu de 4º colocado no certame, ao atleta Barto (nome fictício). Ao receber o Troféu das mãos da Dona Maria, com toda sinceridade e pureza d’alma, Barto declarou que "queria dividir o prêmio com ela, homenageando-a pelo merecimento conseguido com a sua ativa participação nos eventos de sinuca", palavras aplaudidas intensamente pelos assistentes. Sem perda de tempo, Barto passou das palavras à ação: segurou o troféu nas duas extremidades e, com um golpe na perna, literalmente "dividiu o troféu", quebrando-o em duas partes, dizendo: "Dona Maria, escolha um dos pedaços. A senhora merece!"
Espanto no recinto! Nenhuma palavra, nenhum gesto ou sussurro! Silêncio total! Olhares atônitos para todo lado! Ninguém entendia se o ato era real ou parte de encenação planejada, talvez na esperança de que alguém entraria triunfalmente com o troféu verdadeiro, transformando tudo em verdadeiro chiste!
Nada disso acontecendo, com a sua peculiar gentileza, Dona Maria quebrou o silêncio dizendo: "fico com este, meu filho...!" enquanto pegava a parte menor! Abraços... ainda desconcertantes.... e o Barto continuou o seu discurso de agradecimento, mostrando sincero orgulho pelo seu grande ato, em dividir as honras do seu troféu!
Relatado de Valmir Antônio Couto da Silva, quando presidente da Federação Baiana - BA - 02/99.
Paulo Dirceu Dias
paulo@snookerclube.com.brVisite o site "Sportmania": http://www.sportmania.com.br/ - Coluna "Bolas e Caçapas".
LIVRO
- SNOOKER: TUDO SOBRE A SINUCA
DE SERGIO FARACO E PAULO DIRCEU DIAS