PAULO DIRCEU DIAS

COLUNA PUBLICADA NO SITE "SPORTMANIA"

EM 22.03.2007

SALOON - CONTO DE SERGIO FARACO

Para tratar de assuntos da sinuca fui apresentado por amigo comum ao escritor rio-grandense-do-sul Sergio Faraco, também praticante do esporte, à mim resultando em grata amizade e feliz parceria no lançamento do livro “Snooker: tudo sobre a sinuca”, publicado em 2005 pela L&PM, hoje esgotado e já em reedição. Nesse livro o Faraco concordou em incluir seu conto “Saloon”, originalmente publicado no seu livro “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004. Admirador do famoso escritor e das suas dezenas de obras - listadas em http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/ -, tenho especial apreço por esse conto, a seguir reproduzido com autorização do autor, por retratar de forma agradável e simpática uma era polêmica, quase romântica e geralmente mal vista, vivida pelos adeptos da sinuca. Esse conto foi dedicado ao amigo que nos apresentou, também gaúcho e praticante do esporte, Homero Magajevski.

Saloon
De Sergio Faraco

Para Homero Magajevski

     - Bola quatro ao meio - disse o velho.
     Um homem entrava no bar e parou, ficou olhando. A bola bateu no bico da caçapa, não caiu e o velho se queixou:
     - Não é meu dia.
     O recém-chegado sentou-se a uma mesinha de canto e chamou o garçom. Era moço ainda, moreno-claro, traços indiáticos. Vestia calça de brim azul, tênis e um colete preto sobre a camisa branca, arremangada. Trazia a barba por fazer e presos os longos cabelos pretos numa fita que, desde muitas luas, não gozava dos benefícios da água.
     O garçom trouxe a bebida, o homem observava o jogo, em que se enfrentavam um mulato retaco e o velho de tez azeitonada que perdera a bola quatro. O mulato dava vantagem e vencia. Era bom jogador, ao passo que o velho, sobre aparentar nervosismo, era aquilo que, nas rodas de sinuca, chamam pangaré.
     A certa altura, qualquer aficionado teria percebido que o mulato, deliberadamente, começou a jogar mal. Derrotado, propôs dobrar a parada. E logo tornou a ganhar. Teria percebido também, pelo diálogo dos olhos, que três ou quatro indivíduos à volta da mesa eram comparsas do ganhador.
     Mais de hora se passava quando o velho, errando uma bola seis que o outro lhe facilitara, desanimou e sentou-se, cabisbaixo, taco entre os joelhos. O mulato, quase irritado com tanta ruindade, matou a bola cor-de-rosa com um tiro seco ao meio e fechou a partida com duas pretas na mesma caçapa, ao fundo.
     - Venha - exigiu, fazendo sinal com os dedos.
     - Tá na caçapa.
     - Não tá, não. Venha.
     O homem do rabo-de-cavalo olhava placidamente para o velho, decerto também vira que nenhuma cédula fora colocada na caçapa, como até então vinham fazendo e é o que se impõe num jogo a valer. A aposta, ainda que dobrada, era irrisória, mas o velho meneava a cabeça e não dizia nada. O mulato agarrou-o pelo braço, sacudindo-o, e a resposta veio num fio de voz:
     - Perdi tudo...
     - Até a vergonha - rosnou o mulato.
     E aplicou-lhe um joelhaço na coxa.
     - Calma, Gorila - disse o dono do bar, atrás do balcão.
     O velho, mancando, foi guardar o taco na taqueira, e o garçom, que ouvira a conversa, foi atrás.
     - A despesa, amizade.
     - Amanhã eu...
     - Amanhã? Tá sonhando? Amanhã é pó de traque - e mostrou-lhe um papel com uns rabiscos.
     Antes que o velho dissesse qualquer coisa, o homem do rabo-de-cavalo estalou os dedos e indicou o próprio peito.
     - Deus é grande - disse o garçom -, o prejuízo mudou de bolso.
     O velho olhou em torno, como querendo identificar seu benfeitor, e rapidamente se retirou. Gorila e seus amigos se olharam.
     - Bonito gesto - disse Gorila, arrastando uma cadeira para a mesa do desconhecido. - Me acompanha numa cervejinha?
     - Não bebo.
     O mulato pegou o copo e provou:
     - Arre! Guaraná! É promessa?
     - Questão de gosto.
     O garçom esperava. O homem desembolsou uma carteira estofada, que todos viram, mas ao abri-la protegeu-a com o corpo. Pagou a conta do velho e o guaraná.
     - Valeu, comandante - disse o garçom.
     -Traz uma, Alemão - disse Gorila. - Tô simpatizando contigo, cabeludo. Não vai me dizer que também faz rolar uma bolinha...
     - Às vezes.
     - Olha aí, gente, o cabeludo diz que rola uma bolinha às vezes. A modéstia dele!      Garanto que é um campeão!
     A parceria achou graça.
     - Dos bons, quem tu já viu jogar? O Boneco? O Tuzinho? - tornou, obtendo como resposta um gesto vago. - Confessa, cabeludo, tu é do ramo - e deu-lhe um tapinha nas costas.
     O homem retesou-se, o mulato não percebeu e continuou:
     - Já te vi em algum lugar. No Check-Point? No Julius?
     - Pode ser - disse o outro, levantando-se.
     - Ué, já vai? - e o mulato abriu os braços, como condoído. - E vai assim, sem fazer pra galera uma demonstração da tua catega?
     - Uma partida só eu posso jogar, se faz questão.
     - Uma só? Que egoísmo, cabeludo! Vá lá, uma só, pra refrescar o saco - e foi colocar as bolas em seus pontos.
     O homem escolheu um taco na taqueira. Antes de sortearem a saída, Gorila espalmou a mão no pano.
     - Vale uma cervejinha? Pra ter graça.
     - Pra ter graça, uma cervejinha é pouco.
     - Ora, ora, ora - riu-se Gorila, e com um gesto de quem se rende estipulou um valor maior. - Tá bom assim?
     - Mixaria.
     O sorriso apagou-se no rosto do mulato e entre ele e os comparsas houve uma troca de olhares que, por certo, valia muitas frases.
     - Quanto te agrada?
     O outro quintuplicou a aposta e repetiu: "Pra ter graça".
     - Numa partida só? Que é isso, cabeludo? Olha que eu te conheço, eu sinto que te conheço!
     E sentou-se. Encostado na mesa, o homem o olhava, impassível.
     - Olha o índio tripudiando - disse um dos comparsas.
     - Eu conheço esse cara... Porra, cabeludo, eu te conheço!
     O homem pôs-se a taquear sem direção, contra as tabelas.
     - Alguém mais quer jogar? Uma partida só e dou 7 pontos.
     - Pra mim também? - quis saber o Gorila, num tom de quem se exclui.
     - Não. Pra ti... te dou 10.
     - O índio é galo - disse um baixinho de boné virado, que bebia debruçado no balcão.
     Gorila levantou-se, pálido.
     - Olha aqui, figurinha...
     - Devagar, Gorila - advertiu o dono do bar, com impaciência.
     - Devagar? O cara tá querendo me humilhar!
     - Tá com medo, Gorila? - de novo o baixinho.
     - Medo? Eu? Não viram o que eu fiz com aquele velho de merda, que também cantou de galo? Saiu depenado. Eu tenho história, tá sabendo? Arruma as bolas!
     - Arruma tu - disse o homem.
     Houve um momento de indecisão, mas o garçom, solicitamente, fez com que as bolas tornassem aos seus pontos. Sorteada a saída, esta tocou para o mulato.      Ambos colocaram as cédulas na caçapa do meio e as do Gorila, amarrotadas, eram aquelas que ganhara do velho e muitas outras que teve de juntar.
     - Mas que te conheço, te conheço - resmungou, enquanto passava giz no taco. - Como é teu nome?
     - Nome não vale ponto - disse o outro, sem olhá-lo.
     - Essa eu quero ver - disse o dono do bar.
     Gorila deu a saída, deixando a bola vermelha encostada na tabela oposta, ao fundo, e a bola branca quase atrás da sete. A vermelha não estava descoberta e ouviu-se um zunzum quando o homem, ao invés de optar por nova saída, cantou sua jogada:
     - Bola seis ao meio.
     A bola cor-de-rosa caiu limpa na caçapa onde estava o dinheiro, e a branca, seguindo em frente, roçou na tabela lateral e, passando por trás da amarela, foi repicar na vermelha, desencostando-a da tabela do fundo.
     - Puta que o pariu! - murmurou o baixinho.
     - Bola ás ao fundo - disse o homem.
     Encaçapou a vermelha, duas vezes a marrom, encaçapou a amarela, outras duas vezes a marrom, encaçapou a verde e logo a marrom mais duas vezes. Com uma puxeta levou a bola branca para o meio da mesa e ali, depois de um tiro seco na bola azul, preparava-se para jogá-la novamente quando Gorila praguejou. O homem ergueu-se, passou giz no taco, mas não disse nada. Deu outro tiro seco na bola azul, fazendo com que a branca retrocedesse e, dando na tabela, rodasse vagarosamente até a vizinhança da cor-de-rosa. Não era preciso jogá-la. Partida encerrada.
     Gorila, que acompanhara as últimas manobras da bola branca sentado entre os amigos, encostou o taco na parede e ergueu-se.
     - Tu não presta, cabeludo, teu lugar não é aqui. Aqui só tem gente honesta e tu é gatuno.
     O outro fez que não ouviu e pegou o dinheiro na caçapa. Gorila se aproximava, com dois de seus parceiros.
     - Ah, não vai levar.
     Mais um passo e viu uma faca encostada em seu umbigo.
     - Quieto - disse o homem. - Não quero te machucar.
     - Ô Gorila, ele ganhou na lei do jogo - era o dono do bar.
     O mulato respirava forte, olhando para a faca, os parceiros imóveis, atrás dele.      Em meio ao inusitado silêncio do bar, ouviram-se pela primeira vez os ruídos da cozinha.
     - Agora vou sair - disse o homem, calmamente. - Não quero furar ninguém, certo? Mas se tiver que furar, eu furo.
     Recuou dois passos e, sem descuidar-se do mulato, encaminhou-se para a porta. Na calçada, guardou a faca sob o colete e olhou para trás. Não vinha ninguém e ele apurou o passo. Dobrou a esquina e, no meio da quadra, entrou numa lanchonete. O velho de tez azeitonada estava sentado ao balcão.
     - Pai.
     O velho voltou-se.
     - E aí? Deu certo?
     O homem meteu o maço de cédulas no bolso do velho.
     - Hoje deu.
     - Isso é o que vale. Vamos comer uma pizza.
     - E aquele joelhaço?
     - Tá doendo um pouco. Foda-se.

Sérgio Faraco
Livros “Contos Completos”, Porto Alegre, L&PM, 2004, e “Snooker: tudo sobre a sinuca”, L&PM, 2005. Também disponível no site do autor: http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/conto.htm.

Sergio Faraco nasceu em Alegrete, no Rio Grande do Sul, em 1940. Nos anos 1963-5 viveu na União Soviética, tendo cursado o Instituto Internacional de Ciências Sociais, em Moscou. Mais tarde, no Brasil, bacharelou-se em Direito.

Em 1968 publicou seus primeiros contos no Caderno de Sábado do Correio do Povo.
Em 1988, seu livro A Dama do Bar Nevada obteve o Prêmio Galeão Coutinho, conferido pela União Brasileira de Escritores ao melhor volume de contos lançado no Brasil no ano anterior. Seguiram-se incontáveis obras, prêmios e distinções especiais, nacionais e internacionais. Conheça mais sobre o escritor e obras em seu site: http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/conto.htm. Contatos: sergio.faraco@zerohora.com.br. Correspondências: Caixa Postal 8544 - Tristeza - Porto Alegre - RS - CEP 91901-970.

Paulo Dirceu Dias
paulo@snookerclube.com.br

Março/2007

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