PAULO DIRCEU DIAS

COLUNA PUBLICADA NO SITE "SPORTMANIA"

EM 05.05.2007

CAÇAPAS E MARCAS NA SINUCA

Para adotar no Brasil a regra internacional da sinuca (snooker), acontecimento de 1996, duas providências foram impositivas; a modificação no formato dos “bicos” das tabelas, ou “bocas” de caçapas, e alteração nas marcas e linhas sobre o campo de jogo, fatos que originaram algumas controvérsias, até hoje mantidas entre alguns que desconhecem razões e finalidades.

A mesa oficial internacional para o snooker, identificada pelas medidas da pedra, 12 x 6 pés, determina um campo de jogo de aproximadamente 3,56 m x 1,78 m. Nos primórdios da prática do snooker no Brasil foram usadas as mesas então aqui predominantes, oficiais para o bilhar (carambola), nelas adaptando caçapas e adotando como oficial o seu campo de jogo, com as medidas de 2,84 m x 1,42 m, com marcas e linhas também diferenciadas. Para corrigir os pontos de bolas e linhas orientadoras na recente implantação da regra internacional entre nós, bastou fazer a adaptação proporcional no campo de jogo. E, para termos único padrão, foi determinado que a regra brasileira também usaria as mesmas marcas e linhas.

No processo de modificação das normas internacionais, que acabou criando a regra brasileira, ignorando a proporcionalidade em relação ao diâmetro das bolas aqui usadas, de 54 mm, adotaram a abertura de 75 mm para as caçapas, as vezes menos. Esse padrão, razoável para a regra nacional, tornava impraticável o desenvolvimento da regra internacional, pois impedia atingir condições de jogo e resultados técnicos similares nas tacadas, tornando as partidas excessivamente difíceis, demoradas, cansativas e desestimulando sua prática. Era necessário conseguir tacadas com resultados próximos aos do snooker, de uso mundial! Substituir as bolas de 54 mm, em uso nacional, pelas mundialmente usadas, de 52,5 mm, era impossível e quase nada resolveria! Adotar a abertura das caçapas com a proporção internacional obrigaria à troca ou reforma radical das tabelas nas mesas em uso, milhares, determinação também impensável. Para implantar a norma internacional no Brasil os dirigentes do esporte estavam em “situação de sinuca”!

Procurando solução, em 1995/96 foram realizadas diversas reuniões entre dirigentes do esporte, profissionais em reforma e construção de mesas e experientes jogadores, entre eles o Jesus Gabriel Sanchez e o Rui (Chapéu) Mattos Amorim, realizando experiências práticas que depois foram trabalhadas por um engenheiro, que desenhou os gabaritos, e finalmente foi encontrada a solução: alterar os ângulos de contornos e aberturas para as caçapas, sem exigir modificações na estrutura das tabelas, em formato que possibilitava obter resultados similares ao internacional, na conversão das bolas. Seguidos testes aconteceram e a proposta foi aprovada. Essa decisão possibilitou a aprovação e adoção da norma internacional no Brasil, mediante simples adaptação nos contornos dos bicos das tabelas, sem reformas significativas nas mesas em uso.

Isto esclarecido, podemos avaliar fatos e argumentos que envolvem freqüentes comentários sobre as modificações implantadas.

As caçapas hoje oficiais realmente tem contornos diferentes do padrão internacional, adoção consciente, uma vez que essa característica permitiu obter resultado similar na conversão de bolas, sem exigir grandes reformas nas tabelas. A modificação adotada também facilitou a conversão de bolas, e essa foi a exata intenção, uma vez que a imposição de dificuldades acima do padrão internacional não trás benefícios ao esporte e praticantes, mas sim, origina incoerentes e inaceitáveis obstáculos para atingirmos a meta de qualidade e desempenho técnico encontrados mundialmente!

No padrão internacional do snooker as caçapas tem abertura 69,6% maior que o diâmetro das bolas, estas com 52,5 mm (2 1/16 pol) e aquelas com 89 mm (3 1/2 pol). Aqui, as bolas com 54 mm e caçapas de 75 mm determinavam apenas 38,9% a mais na abertura, no formato antigo originando a grande dificuldade no encaçapamento das bolas. No final deste texto imagens mostram as comparações. Qual a razão de impormos aos nossos atletas dificuldades maiores que as exigidas internacionalmente? Isso é equivalente a, apenas no Brasil, jogarmos futebol usando as traves de gol com espaços menores que o padrão mundial, ou o basquete, com o aro do cesto em diâmetro inferior ao modelo internacional! No nosso esporte é interessante destacar ainda que o pool, outra regra de acentuado crescimento internacional, principalmente na modalidade “bola 9”, adota abertura com o dobro do diâmetro da bola usada, que tem 57 mm (2 ¼ pol) para caçapas com o mínimo de 114 mm (4 1/2 pol), e é exatamente essa característica que determina seu sucesso, pela enorme “mataria” que proporciona!

A preferência e tentativa de exigir caçapas exageradamente estreitas, ou com padrão dificultado, tem origem em minoria de jogadores especialmente técnicos, que em auto-proteção preferem recusar aos oponentes maior facilidade na conversão de bolas, esquecendo-se de que isso desestimula a prática do esporte, além de ser incoerente e conflitante com o padrão mundial! O iniciante que encontra dificuldades, em caçapas apertadas ou difíceis, geralmente abandona a prática. Mas, quando consegue “matar” bolas retorna frequentemente às mesas e mantém o estímulo em busca do crescimento técnico, além de induzir outros à acompanha-lo e apreciar a sua “mataria”! Como exemplo, comento o acontecido em importante clube de São Paulo, capital, que sempre ofereceu e mantém grande estímulo à sinuca, em seu salão com 8 mesas de ótima qualidade, na época com caçapas de aproximadamente 70 mm, todas “temidas” pela maioria dos jogadores! Na determinação de modificação das caçapas, em 1996, os jogadores antigos e tradicionais do clube conseguiram barrar a reforma, condenando a facilidade que seria oferecida no encaçapamento de bolas. Tempos depois um novo diretor de sinuca, mais ousado, sem alarde e praticamente “na calada da noite”, determinou as modificações. Reformas feitas, de imediato ele enfrentou sérias dificuldades nas justificativas, e muitas condenações acintosas, que em curto prazo foram transformadas em elogios pela ousadia e perfeita visão desportiva, uma vez que a iniciativa surpreendeu favoravelmente, proporcionando acentuado aumento na freqüência do belo salão, principalmente dos jovens, em número, assiduidade e crescimento técnico, também intensificando a disputa por vagas nas equipes que defendiam o clube nos campeonatos, forçando inclusive a criação de novos times.

Entendo ser coerente, racional e necessário oferecermos ao nosso praticante a mesma condição exigida internacionalmente e, para isso, todos os clubes, salões e outros locais de prática da sinuca devem adotar o padrão que permite tal condição, modificando as caçapas para o novo gabarito, definitivamente. O esporte e praticantes só tem a ganhar com isso!

A respeito das marcas e linhas concordo com uma ponderação; em relação à elas, para o uso da regra brasileira a redução proporcional na área e raio do semicírculo “D”, e sua maior proximidade da tabela inferior, proporcionam pequena alteração na condição técnica de posicionamento da tacadeira para jogadas seqüenciais. É mínima, praticamente inconseqüente, mas é fato! Se quisermos reavaliar tal ocorrência, entendo serem duas as possibilidades viáveis: 1) a minha preferida, manter a determinação atual de unificação e com ela nos acostumarmos - e só disso depende, respeito à norma, adaptação e costume - uma vez que são proporções usadas internacionalmente e o correto é nos adaptarmos; ou, 2) aprovarmos novamente o uso das proporções nacionais para a regra brasileira, mantendo as duas condições para uso respectivo e/ou opcional. No segundo caso, onde os freqüentadores usam alternadamente as regras, as mesas podem conter as marcas para ambas, uma vez que, após breve familiarização, isso não traz dificuldades, fato que venho comprovando em experiências intencionalmente praticadas, há longo tempo. Essa coexistência de marcas diferentes para várias modalidades é comum, e até complexa, nos pisos de quadras com esportes variados - em ginásios - e são usadas sem problemas. Veja a seguir imagem mostrando as duas marcações em mesma mesa. Outra opção pode ser o uso normal das marcas para a regra que predomina no local e, ao necessitar usar outra, desenha-las temporariamente com giz, providência bastante satisfatória.

Confira e compare:

PARÂMETROS INTERNACIONAIS PARA CAÇAPAS DE CANTO E CENTRO.

 

GABARITOS PARA CAÇAPAS DE CANTO E CENTRO, EM USO OFICIAL NO BRASIL.

EM ESCALA APROXIMADA, DEMONSTRAÇÃO DA COEXISTÊNCIA DAS
MARCAS E LINHAS PARA AS DUAS REGRAS, BRASILEIRA E INTERNACIONAL.

EM FOTO PARCIAL DE MESA DE POOL, DE FÁBRICA INTERNACIONAL,
OBSERVE A PROPORÇÃO ENTRE AS BOLAS E A CAÇAPA, COM ABERTURA
CLARAMENTE DUPLA E COM ÂNGULOS RETOS. ESSE É O PADRÃO PARA O POOL.

Paulo Dirceu Dias
paulo@snookerclube.com.br

Maio /2007 - Sorocaba - SP

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